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Impacto negativo do baixo patamar da confiança no consumo das famílias

dezembro 24, 2015
Tempo de leitura 7 min

Fonte: Economia em Dia

A confiança do consumidor, mensurada pelo Índice de Confiança do Consumidor (ICC) da FGV, acentuou sua trajetória de queda neste ano. Em 2014, o ICC acumulou recuo de cerca de 15,0 pontos, variação modesta frente ao declínio do acumulado nos últimos doze meses, de 26,5 pontos. A contração da atividade, com consequente aumento da taxa de desemprego, a elevação da inflação para patamar bastante superior à meta e a incerteza em relação ao cenário fiscal têm contribuído para constantes retrações do indicador (ainda que em novembro o ICC tenha apresentado leve alta marginal). Apesar de ser influenciada por essas variáveis, a confiança dos consumidores também impacta a atividade, em especial o consumo. Assim como a confiança dos empresários é condição necessária para que se realizem novos investimentos e, dessa forma, se amplie a produção e/ou a produtividade, a confiança dos consumidores é fundamental para que haja retomada do consumo.

A continuidade da confiança em um patamar muito inferior à média histórica tem ocasionado quedas consecutivas do consumo das famílias, puxando o PIB para baixo neste ano, visto que essa variável é responsável por mais de 60% do produto total pela ótica da demanda. Apenas neste ano, o consumo caiu 3,0%. Diversas análises têm apontado a relevância dos indicadores de confiança para antecipar o movimento de variáveis como o PIB e a produção industrial1. Assim, estimamos o comportamento esperado do consumo das famílias para os próximos meses, caso o ICC se mantenha no nível observado nas últimas leituras. Para tanto, utilizamos duas formas de estimação: primeiramente, consideramos que a variação do consumo é explicada pela variação do indicador de confiança, e, depois, assumimos que o movimento do consumo das famílias é função do nível da série de ICC. Esses dois métodos são utilizados pelos economistas e podem chegar a conclusões divergentes, ainda que usem os mesmos dados e assumam as mesmas hipóteses. Nos dois casos, partimos da premissa de que o indicador de confiança ficará constante até o final de 2016, igual à média dos dois últimos dados disponíveis (no caso, os números de outubro e novembro), dada a dificuldade de estimar o comportamento dos índices de confiança em um ambiente de incerteza. Vale destacar que os exercícios realizados aqui são apenas uma simplificação da modelagem, já que o consumo das famílias depende também de outras variáveis.

Antes de apresentar o resultado das simulações, é importante destacar que o ICC é construído a partir de perguntas realizadas ao consumidor sobre diversos aspectos, dentre eles sua percepção em relação a sua situação financeira, à inflação, à facilidade ou dificuldade de arrumar emprego, etc. O valor neutro (100) é somado com o percentual de respostas favoráveis e subtraído do percentual de desfavoráveis. Ressaltamos também que, mais do que mensurar a confiança dos consumidores, o indicador captura contemporaneamente o movimento do mercado de trabalho e da inflação acumulada em doze meses (que juntos formam o Índice de Desconforto), com a vantagem de ser divulgado antes que os demais dados.

Como dito anteriormente, estimamos primeiro o comportamento da série de variação interanual do consumo das famílias a partir da variação interanual do ICC. Muitos analistas fazem uso dessa forma de estimação para calcular o consumo das famílias ou a produção industrial sugerida pelos indicadores de confiança, que pode ser descrita como Y = c(1) + c(2).X + ε, em que Y e X são as variações interanuais do consumo e da confiança dos consumidores, respectivamente, c(1), uma constante e ε, o termo de erro (ou seja, a parcela da variação do consumo que não é explicada pela confiança dos consumidores). Na etapa de estimação, todos os parâmetros mostraram-se significativos. De acordo com essa simulação, o consumo chegaria a sua maior retração interanual no trimestre findo em dezembro, ao apresentar queda interanual de 4,9%. A partir disso, o consumo voltaria a crescer, encerrando o próximo ano com expansão de 4,2%. Descontada a sazonalidade, os resultados são equivalentes a altas trimestrais de 1,0% em média.

Esse tipo de modelagem, todavia, assume que o crescimento do consumo das famílias depende da variação do ICC, mas não de seu nível. Por exemplo, na nossa simulação, o ICC estará estável em um nível muito baixo. Caso o índice também não registrasse variação em relação ao mês anterior, mas estivesse em um patamar muito mais elevado, o resultado sugerido pelo modelo seria o mesmo. Isso explica o fato de que, mesmo em um cenário de confiança reduzida, o consumo registraria elevações em relação ao mesmo período do ano anterior, já no segundo trimestre de 2016.

Na segunda simulação, estimamos o comportamento da variação interanual do consumo a partir do nível da série de confiança da FGV, para que o modelo econométrico consiga capturar os efeitos do nível do ICC sobre o consumo: Y = c(3) + c(4).Z + ε. Nesse caso, Y ainda representa a variação interanual do consumo, enquanto Z é o nível do ICC e c(3), uma constante. Novamente, os parâmetros mostraram-se significativos. Quando realizada, encontramos como resultado que o consumo das famílias continuaria caindo até o final de 2016, atingindo a maior queda interanual no quarto trimestre deste ano, assim como o sugerido pela forma de estimação anterior. Entretanto, a magnitude da retração seria maior (-7,0%) e, a partir disso, o consumo reduziria a intensidade de recuo, chegando a uma variação negativa de cerca de 5,0% no final de 2016, na mesma base de comparação. Dessa forma, o consumo acumularia contração de 4,0% neste ano, e uma de maior magnitude no ano que vem (de 5,3%). Em termos dessazonalizados, os resultados são equivalentes a sucessivas retrações trimestrais de 1,3% em média.

Embora as duas formas de estimação utilizem a mesma premissa de Índice de Confiança do Consumidor constante até o final de 2016, os resultados apresentados são totalmente divergentes entre si. Na primeira, o consumo volta a crescer a um ritmo superior a 4,0%, enquanto na segunda o consumo continua caindo, a taxas de mais de 5,0% em termos anualizados.

Parece-nos intuitivo que a segunda simulação produza resultados mais consistentes, à medida que o nível da confiança importa para a trajetória futura do consumo. Como provocação, nos perguntamos o que deveria ocorrer com o indicador de confiança para que o consumo das famílias crescesse a uma taxa positiva durante um período suficientemente longo no tipo de modelagem número 1. A série de confiança, nesse contexto, teria uma trajetória explosiva, o que, por construção do indicador, não é possível de se concretizar (os índices de confiança foram construídos de forma a tornar as séries estacionárias).

Para que haja recuperação da confiança, é necessário que alguns sinais de mudanças positivas no ambiente político-econômico sejam emitidos, elevando a avaliação da situação atual e das expectativas, e dessa forma realimentando o consumo. Dessa forma, o ICC só voltará a crescer com desaceleração significativa da inflação, melhora no mercado de trabalho e da atividade e redução das incertezas no âmbito fiscal. Entretanto, os indicadores divulgados recentemente não sugerem mudança de cenário para os próximos meses. Pelo contrário, sinalizam continuidade do enfraquecimento da atividade e da confiança: projetamos recuos de, respectivamente, 3,6% e 2,8% do PIB para 2015 e 2016, impulsionados, em grande medida, pelas retrações de 3,8% e 3,0% do consumo das famílias, nessa ordem.

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